Como cuidar da tua pele durante o tratamento oncológico

   09/11/2026 11:26:27     Home
Como cuidar da tua pele durante o tratamento oncológico

Se estás a fazer quimioterapia, radioterapia ou outra terapêutica oncológica, provavelmente já reparaste que a tua pele deixou de se comportar como antes. Ficou mais seca, mais sensível, talvez com vermelhidão ou comichão nalgumas zonas. Isto é completamente normal e não estás sozinho/a a senti-lo.

Na Farmácia d'Arrábida falamos quase todos os dias com pessoas a passar por esta fase, e sei que, no meio de tantas preocupações com o tratamento em si, cuidar da pele pode parecer um pormenor menor. Mas não é. Uma pele bem cuidada dói menos, coça menos e ajuda-te a sentires-te mais confortável e confiante ao longo de todo o processo. Por isso, este artigo reúne tudo o que precisas de saber para cuidares da tua pele nesta fase.

 

Porque é que a tua pele muda durante o tratamento?

Os tratamentos oncológicos — quimioterapia, radioterapia, terapêuticas dirigidas ou imunoterapia — não atuam apenas sobre as células cancerígenas. Atingem também as células da pele, que se multiplicam rapidamente e, por isso, são particularmente sensíveis a estes fármacos. O resultado é uma barreira cutânea mais frágil, que perde água com mais facilidade e fica menos protegida contra agressões externas como o frio, o calor ou o atrito da roupa.

Os números mostram bem a dimensão do problema: mais de 80% das pessoas em tratamento oncológico desenvolvem efeitos secundários cutâneos, e pelo menos metade sofre reações cutâneas significativas causadas pela radioterapia. Pele seca, comichão, vermelhidão, descamação, alterações nas unhas e no cabelo… são todas manifestações do mesmo fenómeno: a tua pele está a trabalhar mais do que nunca para se proteger.

A boa notícia é que grande parte destas consequências pode ser prevenida e aliviada com gestos simples de limpeza, hidratação e proteção, adotados desde o início do tratamento, mesmo antes de surgirem os primeiros sintomas.

 

A tua rotina diária em 3 passos

Não precisas de uma rotina complicada. Precisas de uma rotina consistente, com produtos adequados a esta pele mais sensível.

 

1. Limpar sem agredir

Esquece os sabonetes tradicionais durante esta fase: têm um pH demasiado alto para uma pele já fragilizada. Opta por produtos de limpeza sem sabão (chamados "syndet"), com um pH próximo de 5,5, o pH natural da tua pele. Prefere duches rápidos e mornos a banhos longos e muito quentes, que ressecam ainda mais a pele, e seca-te sempre sem esfregar, deixando a toalha apenas tocar a pele.

Na Farmácia d'Arrábida, uma opção que costumamos recomendar é o Lipikar Syndet AP+, da La Roche-Posay, um creme de limpeza sem sabão desenvolvido especificamente para peles muito secas e reativas.

 

2. Hidratar em profundidade, todos os dias

A hidratação é, provavelmente, o gesto mais importante nesta fase. Repara a função barreira da pele, devolve flexibilidade e conforto, e reduz a comichão e o risco de gretas nas mãos e nos pés. Procura texturas em bálsamo ou creme, com ingredientes que imitam os lípidos naturais da pele, como a manteiga de karité ou as ceramidas, e evita sempre produtos com fragrância, que podem irritar ainda mais uma pele já sensibilizada.

Aplica o creme por todo o corpo, da cabeça aos pés, sem esquecer a zona atrás das orelhas, as pálpebras, a nuca e as plantas dos pés, de manhã e à noite. Um estudo clínico mostrou que o uso regular de um bálsamo de barreira reduz os efeitos secundários cutâneos da quimioterapia e melhora o conforto e o bem-estar psicológico das doentes já ao fim de seis semanas. É o caso do Lipikar Baume AP+M, para aplicar no corpo uma a duas vezes por dia. Para o rosto, se a pele estiver especialmente reativa ou intolerante, o Bioderma Sensibio Defensive Creme é uma boa escolha.

 

3. Proteger do sol, sempre

Durante o tratamento e até cerca de um ano depois, a tua pele fica muito mais sensível à radiação UV, mesmo em dias nublados ou atrás de uma janela, já que os raios UVA atravessam o vidro. Usa diariamente um protetor solar com FPS 50+ e proteção UVA elevada, reaplicando a cada duas horas sempre que estiveres exposto/a. Se estás a fazer radioterapia, a área irradiada fica particularmente vulnerável a queimaduras solares e deve ser protegida ao longo de toda a vida. E não te esqueças: a roupa, o chapéu de abas largas e os óculos de sol são a tua primeira e melhor proteção.

Recomendamos o Heliocare 360º Mineral Tolerance Fluid, com filtros minerais, sem fragrância e proteção de largo espetro muito elevada, pensada para peles sensibilizadas por tratamentos.

 

Síndrome mão-pé: como podes preveni-lo

Alguns tratamentos, sobretudo certos tipos de quimioterapia, podem causar a chamada síndrome mão-pé: vermelhidão, secura extrema, dor e, por vezes, descamação e formigueiro nas palmas das mãos e nas plantas dos pés. Pode ser bastante incomodativo, mas há formas eficazes de o prevenir.

Hidrata as mãos e os pés várias vezes ao dia com creme ou bálsamo, aplicando uma camada espessa à noite, se possível sob meias ou luvas de algodão, para potenciar a absorção. Evita duches muito quentes, estar muito tempo de pé e usar sapatos apertados. Opta por calçado largo, confortável e de preferência em pele. Usa luvas para tarefas domésticas como lavar a loiça ou fazer jardinagem, e mantém as unhas curtas.

Um estudo publicado no Journal of Clinical Oncology mostrou que arrefecer as mãos durante a administração de determinados quimioterápicos (com recurso a luvas geladas) reduz de forma significativa o risco de toxicidade cutânea e de alterações nas unhas associado a este tipo de tratamento. Vale a pena perguntar à equipa de saúde que te acompanha se esta opção está disponível para o teu caso.

Se a pele das mãos e dos pés ficar muito espessa e áspera, recomendamos um creme com 10% de ureia. Para reforçar a barreira e acalmar zonas mais castigadas como mãos, pés, lábios ou qualquer área irritada, o Cicaplast Baume B5 é um bálsamo reparador muito versátil, que vale a pena ter sempre à mão.

 

E o cabelo e o couro cabeludo?

Se estiveres a fazer um tratamento que provoque queda de cabelo, o teu couro cabeludo fica também mais sensível e precisa de cuidado redobrado. Usa um champô muito suave e seca sempre o cabelo, ou o couro cabeludo, se este estiver mais exposto, sem esfregar. Evita secadores muito quentes, alisadores, permanentes e colorações durante esta fase, e retoma-os apenas alguns meses depois de terminado o tratamento.

Se sentires comichão no couro cabeludo, uma massagem diária suave com um produto calmante pode ajudar a aliviar o desconforto, além de ser um pequeno momento de relaxamento no teu dia. Vichy Dercos Champô Ultra-Apaziguante é um champô muito suave, desenvolvido para couros cabeludos sensibilizados, que respeita o cabelo mesmo com uma utilização frequente.

 

Quando deves falar com a tua equipa de saúde

Nenhum destes conselhos substitui o acompanhamento da tua equipa de cuidados de saúde. Se notares reações cutâneas intensas, dor persistente, sinais de infeção (calor, pus, febre) ou qualquer alteração que te preocupe, fala com o teu médico, oncologista ou dermatologista sem esperar pela próxima consulta agendada.

E para as dúvidas do dia a dia como que produto usar, quando aplicar, como adaptar a rotina a uma pele que está sempre a mudar, estamos aqui, na Farmácia d'Arrábida, exatamente para isso. Não hesites em perguntar-nos, presencialmente ou através do nosso site.

 

Cuidar da pele é cuidar de ti

Esta fase da tua vida já exige tanto de ti. Cuidar da pele não precisa de ser mais uma fonte de esforço ou de stress pode, pelo contrário, tornar-se um pequeno momento diário só teu, de gentileza contigo mesmo/a. Com os gestos certos e os produtos adequados, é possível prevenir grande parte do desconforto cutâneo associado ao tratamento e sentires-te mais confortável, por dentro e por fora. Estamos aqui para te acompanhar nesta caminhada, com todo o cuidado e toda a informação que mereces.

 

Bibliografia

[1] Berger, A., Bachmann, N., Delarue, P., & Le Prisé, E. (2017). Interest of supportive and barrier protective skin care products in the daily prevention and treatment of cutaneous toxicity during radiotherapy for breast cancer. Breast Cancer: Basic and Clinical Research, 12, 1–7.

[2] Charles, C., Piccart, M., Piccirillo, A., & Puiggari, F. (2013). Impact of cutaneous toxicity associated with targeted therapies on quality of life. Bulletin du Cancer, 100(3), 218–222.

[3] Robert, C., Sibaud, V., Mateus, C., Verschoore, M., Charles, C., Lanoy, E., & Baran, R. (2015). Nail toxicities induced by systemic anticancer treatments. The Lancet Oncology, 16(4), e181–e189.

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