Quando a estação muda, o teu corpo sente - e a tua pele também

   03/18/2026 14:24:27     Home
Quando a estação muda, o teu corpo sente - e a tua pele também

Como adaptar a tua rotina de cuidados para te sentires no teu melhor ao longo de todo o ano

Já reparaste como a tua pele fica diferente assim que o outono chega? A sensação de aperto depois do banho, o brilho que desaparece, a comichão que surge sem razão aparente. Ou, ao contrário, o excesso de oleosidade que regressa com o calor de maio. Não é coincidência, nem imaginação tua. O teu organismo é extraordinariamente sensível às variações sazonais — à temperatura, à luz do dia, à humidade do ar, à qualidade do sono — e responde a todas elas de formas muito concretas.

O que a investigação científica nos mostra, de forma cada vez mais clara, é que estas mudanças não se limitam à superfície da pele. Afetam o humor, a energia, o sistema imunitário e até a forma como os nossos genes se expressam ao longo do ano. Conhecer esses mecanismos é o primeiro passo para deixares de reagir às mudanças de estação e começares a antecipá-las — com escolhas simples, baseadas em evidência, que fazem uma diferença real no teu bem-estar diário.

 

O ritmo do teu corpo ao longo do ano

O ser humano é, antes de tudo, um organismo circadiano: o nosso corpo funciona em ciclos de aproximadamente 24 horas, regulados principalmente pela luz solar. Mas existe também um ritmo mais longo, menos falado, chamado ritmo circânuo — um ciclo anual de adaptações fisiológicas que o nosso organismo realiza em resposta às mudanças sazonais.

O protagonista deste processo é a glândula pineal, uma pequena estrutura localizada no centro do cérebro. À medida que os dias encurtam e a luz diminui no outono e no inverno, ela intensifica a produção de melatonina, a hormona que sinaliza ao corpo que é hora de descansar. Isso explica porque razão muitas pessoas sentem mais sonolência, menos disposição e uma vontade quase irresistível de ficar em casa quando as tardes começam a escurecer mais cedo.

Paralelamente, os níveis de serotonina — o neurotransmissor associado ao bem-estar, à motivação e ao humor positivo — tendem a cair nestes meses. Esta descida pode manifestar-se de formas subtis, como uma ligeira melancolia ou dificuldade de concentração, mas nalguns casos evolui para aquilo que a psiquiatria designa de perturbação afetiva sazonal (SAD, do inglês Seasonal Affective Disorder): um padrão de episódios depressivos que surgem sistematicamente no outono/inverno e remitem na primavera. Estima-se que afete entre 1 a 3% da população geral e que formas mais ligeiras — o chamado "blues de inverno" — atinjam até 20% das pessoas.

Na outra ponta do ano, a primavera e o verão trazem mais luz, mais energia e um humor geralmente mais elevado. Mas também os seus próprios desafios para a pele e para a saúde em geral — que não devem ser subestimados.

 

A pele como espelho das estações

A pele é o maior órgão do corpo humano e, ao mesmo tempo, a sua primeira linha de defesa contra o ambiente. A sua barreira protetora exterior — o chamado estrato córneo — é uma estrutura dinâmica, constantemente moldada pelas condições a que está exposta: temperatura, humidade, vento, poluição e radiação solar.

 

O que o frio faz à tua pele

Com a queda das temperaturas e a diminuição da humidade relativa do ar, a pele perde água mais rapidamente através de um processo fisiológico chamado perda transepidérmica de água. Em condições normais, este processo é regulado pelos lípidos naturais da barreira cutânea — ceramidas, ácidos gordos livres e colesterol. Mas quando o frio é intenso e o ar está seco, essa regulação falha, a barreira enfraquece e a pele fica vulnerável.

O resultado prático são peles mais secas, com menor elasticidade, mais propensas a irritações, vermelhidão e descamação. Em pessoas com predisposição genética, este enfraquecimento da barreira cutânea pode precipitar agudizações de condições como a dermatite atópica, a psoríase ou a rosácea. Um fator frequentemente ignorado agrava ainda este cenário: o aquecimento artificial em casa e no trabalho. Os sistemas de aquecimento reduzem drasticamente a humidade do ar interior, criando um ambiente mais seco do que o próprio exterior em pleno inverno.

Nota prática: Manter um humidificador no quarto durante os meses mais frios pode ajudar a compensar o efeito ressecante do aquecimento e a melhorar a qualidade do sono — especialmente em crianças com pele atópica.

 

O que o calor faz à tua pele

Com o aumento das temperaturas, as glândulas sebáceas entram em alta atividade. A produção de sebo aumenta, os poros dilatam e a transpiração intensifica-se — o que cria um ambiente propício ao desenvolvimento de acne, especialmente nas peles mistas ou oleosas. A combinação de sebo, suor e células mortas pode obstruir os folículos pilosos e desencadear inflamação.

Mas o desafio mais sério do verão para a pele é, sem dúvida, a radiação ultravioleta. Os raios UV dividem-se em dois tipos principais: os UVB, de comprimento de onda mais curto, que causam queimaduras solares e estimulam a produção de vitamina D; e os UVA, de comprimento de onda mais longo, que penetram nas camadas mais profundas da pele, provocam danos no ADN celular e são os principais responsáveis pelo fotoenvelhecimento precoce — rugas, manchas e perda de firmeza. Ambos estão presentes durante todo o ano, mas a sua intensidade é máxima entre maio e setembro no hemisfério norte. A exposição acumulada ao longo da vida está diretamente associada ao aumento do risco de cancro da pele, incluindo o melanoma.

Um aspeto frequentemente subestimado: os raios UVA atravessam o vidro. Isso significa que a exposição solar acontece mesmo quando estás dentro de um carro ou junto a uma janela de escritório, sem que o sintas.

 

Imunidade, vitamina D e a ciência sazonal que nem conhecias

A influência das estações no nosso organismo vai muito além da pele e do humor. Em 2015, um estudo publicado na Nature Communications analisou amostras de sangue de mais de 16 000 pessoas em diferentes países e descobriu algo notável: a expressão de cerca de 4 000 genes humanos varia significativamente consoante a estação do ano. No inverno, os genes associados à resposta inflamatória estão mais ativos; no verão, predominam genes ligados à função imunitária adaptativa. Esta descoberta ajuda a compreender porque é que as doenças inflamatórias — desde as cardiovasculares às autoimunes — tendem a agravar-se no inverno.

A vitamina D é outro elo fundamental desta cadeia. Sintetizada na pele através da exposição aos raios UVB, os seus níveis no organismo oscilam ao longo do ano de forma previsível: sobem no verão, descem no outono e atingem os valores mais baixos no final do inverno. Em Portugal, apesar do clima favorável, a deficiência de vitamina D é mais comum do que se pensa, especialmente em pessoas que passam a maior parte do dia em espaços fechados. As consequências de níveis insuficientes incluem maior fadiga, alterações de humor, enfraquecimento do sistema imunitário e, a longo prazo, comprometimento da saúde óssea.

A ligação entre vitamina D e saúde mental é particularmente relevante: receptores de vitamina D estão presentes no cérebro em áreas associadas à regulação do humor, e alguns estudos sugerem que a suplementação pode ter um efeito positivo nos sintomas depressivos sazonais, embora a evidência ainda esteja a ser consolidada.

 

Rotina de cuidados adaptada a cada estação

Compreender a fisiologia sazonal permite fazer escolhas mais inteligentes — não seguir modas, mas sim responder ao que o teu corpo realmente precisa em cada momento do ano.

 

Na primavera e no verão — proteger, equilibrar e hidratar 

Cuidados de pele: Com o aumento das temperaturas, o hidratante pesado dá lugar a uma textura mais leve e não comedogénica. O passo mais crítico desta estação é o protetor solar — e ainda há muitos mitos à volta deste tema. Um FPS 30 filtra cerca de 97% dos raios UVB; um FPS 50 filtra 98%. A diferença parece pequena, mas para peles mais sensíveis, com historial de fotodano ou propensas ao melasma, FPS 50 é a recomendação standard. A quantidade aplicada é tão importante quanto o índice: a maioria das pessoas aplica apenas um quarto da dose necessária para atingir o FPS indicado na embalagem. Para a cara, equivale aproximadamente a meia colher de chá. E a reaplicação a cada duas horas é essencial se estiveres ao sol.

Para peles oleosas ou mistas, um tónico com niacinamida (que regula a produção de sebo e fecha os poros) ou ácido salicílico (que esfoliação suavemente e desobstrui os folículos) pode ajudar a controlar o brilho e prevenir o aparecimento de borbulhas. Usa produtos não comedogénicos — é uma designação que indica que a fórmula não obstrui os poros.

Hidratação e hábitos: Com o calor, o corpo perde mais líquidos através da transpiração — e muitas vezes não sentimos sede na mesma proporção em que perdemos água. A recomendação é não esperar pela sensação de sede para beber: distribui a ingestão de água ao longo do dia, especialmente se praticares atividade física. Em dias muito quentes, bebidas com eletrólitos podem ajudar a repor os minerais perdidos.

Evita a exposição solar direta entre as 11h e as 16h, quando a radiação UV atinge o pico de intensidade. Se praticares desporto ao ar livre ou passeios mais longos, planeia-os para as primeiras horas da manhã ou para o final da tarde.

Alergias sazonais: A primavera é a época de maior concentração de pólenes no ar, o que desencadeia rinite alérgica, conjuntivite e, nalguns casos, reações cutâneas como urticária ou agravamento do eczema em pessoas sensibilizadas. Se sabes que sofres de alergias sazonais, não esperes pelos primeiros sintomas para agir: o início precoce do tratamento — antes do pico polínico — é significativamente mais eficaz do que a abordagem reativa. Fala com o teu farmacêutico ou médico sobre as opções disponíveis, que incluem anti-histamínicos orais, corticoides nasais e medidas de evicção alergénica.

 

No outono e no inverno — nutrir, proteger e repor

Cuidados de pele: A transição para um hidratante mais rico é a mudança mais importante. Procura fórmulas que contenham ceramidas (para reforçar a barreira cutânea), ácido hialurónico (para reter água nas camadas superficiais) ou manteiga de karité (para uma ação oclusiva que previne a evaporação). Aplica o creme imediatamente após o banho, com a pele ainda ligeiramente húmida — a absorção é significativamente melhor. Não deixes de usar protetor solar: os raios UVA mantêm-se presentes e ativos mesmo no inverno, mesmo em dias sem sol.

Para quem tem pele atópica ou muito seca, pode fazer sentido adicionar um óleo corporal antes do hidratante, criando uma dupla camada protetora. Consulta o teu farmacêutico para escolheres a combinação certa para o teu tipo de pele.

Suplementação e nutrição: O outono é o momento ideal para reavaliar os teus níveis de vitamina D — o teu médico ou farmacêutico pode ajudar a determinar se faz sentido suplementar e em que dose, já que as necessidades variam consoante a idade, o estilo de vida e a exposição solar habitual. Uma alimentação rica em ácidos gordos ómega-3, presentes em peixes gordos como o salmão, a cavala e as sardinhas, bem como em nozes e sementes de linhaça, contribui para a saúde da barreira cutânea e tem também efeitos documentados na modulação do humor.

Exercício e sono: O exercício físico regular é uma das ferramentas mais eficazes para combater o "blues de inverno". Um estudo comparou a eficácia do exercício aeróbico com a da medicação antidepressiva em pessoas com depressão major e concluiu que os resultados a longo prazo eram equivalentes — com a vantagem de o exercício não ter efeitos secundário. Mesmo uma caminhada diária de 30 minutos ao ar livre, preferencialmente durante as horas de maior luminosidade, combina o benefício do movimento com a exposição à luz natural. Mantém também uma hora de deitar consistente: o aumento sazonal da melatonina é um sinal biológico legítimo, e dormir mais no inverno não é preguiça — é fisiologia.

 

 

Sinais de que deves procurar ajuda profissional

Muitas das mudanças que sentimos com as estações são normais e respondem bem a ajustes simples na rotina. Mas existem situações que merecem uma avaliação profissional:

  • Lesões de pele persistentes, que não melhoram em duas a três semanas com os cuidados habituais, ou que mudam de cor, tamanho ou forma;
  • Episódios recorrentes de humor muito baixo, apatia intensa ou alterações do sono que coincidam com determinadas estações do ano e interfiram com o teu funcionamento diário;
  • Fadiga persistente e inexplicável, especialmente nos meses de menor luz solar;
  • Reações alérgicas cutâneas de causa desconhecida, como urticária ou angioedema;
  • Dúvidas sobre suplementação — os níveis ideais de vitamina D, por exemplo, variam de pessoa para pessoa e devem ser avaliados com base numa análise sanguínea.

O farmacêutico é frequentemente o primeiro profissional de saúde a que deves recorrer nestas situações — e com razão. Para muitas destas questões, a farmácia é o ponto de partida mais acessível para uma orientação rápida e personalizada.

 

A estação muda — e tu também podes mudar

O teu corpo não é uma máquina estática que funciona sempre da mesma forma, independentemente do contexto. É um sistema vivo, extremamente sofisticado, que dialoga constantemente com o ambiente à sua volta. Reconhecer as mudanças sazonais como parte integrante da tua saúde — em vez de as tratar como inconvenientes imprevistos — é, em si mesmo, um ato de cuidado.

Quando adaptas a tua rotina de higiene e cuidados de pele, ajustas a tua alimentação, proteges a tua saúde mental e apoias o teu sistema imunitário de forma proativa, não estás apenas a reagir a sintomas. Estás a trabalhar a favor do teu organismo, em sintonia com os seus ritmos naturais. E isso — mais do que qualquer produto ou suplemento isolado — é o verdadeiro fundamento do bem-estar ao longo de todo o ano.

 

Tens dúvidas sobre qual o protetor solar, hidratante ou suplemento mais indicado para a tua pele e estilo de vida? A equipa da Farmácia d'Arrábida está disponível para te ajudar a encontrar as melhores opções — de forma personalizada e sem compromisso.

 

 

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